Montagem da récita de Var. junta os dois coros e pede ao eco que aprove a mixagem
Faixa única com Concórdia e a Peregrina sai neste sábado; o eco de Marta Anyanwu pediu que a defasagem entre os coros não fosse corrigida, e a produção acatou, reabrindo o debate sobre o que um eco pode decidir.
A gravação conjunta do terceiro ato de Var., cantado em 14 de setembro ao mesmo tempo nominal em Concórdia e a bordo da Peregrina, foi publicada neste sábado pela produção da ópera, em Lisboa. São 31 minutos numa faixa só: o Coral de Concórdia, regido por Ilka Souto-Bengala, no canal esquerdo, e as 58 vozes de bordo, regidas por Dario Kessel-Peregrino, no direito. A gravação da Peregrina levou dezoito horas para chegar a Concórdia pela banda de cortesia; a montagem levou dezenove dias.
O que mais se discutiu em Lisboa não foi o som, mas uma decisão de bastidor. A produção submeteu a mixagem ao eco de Marta Anyanwu, a continuidade documental da compositora morta em 2244, que já tinha "assinado" a partitura. O eco aprovou a faixa com um único pedido: que os técnicos não corrigissem a defasagem de alguns centésimos entre os dois coros, visível sobretudo nas entradas do terceiro ato. A produção acatou.
"Consultamos o eco como consultaríamos qualquer arquivo da autora, e o arquivo foi claro", disse o produtor executivo Ruben Taddei-Osório. "A decisão final foi nossa e da família, que detém os direitos."
A ressalva não encerrou o assunto. Pela Lei dos Ecos, de 2241, um eco é continuidade documental, sem personalidade jurídica, e não aprova nada em sentido legal. A advogada Hanne Okoro-Prado, que representa o grupo de pesquisa em direito póstumo da Universidade de Coimbra, lembrou que a fronteira já foi testada na estreia, em agosto. "Se o arquivo pede e a produção obedece, o arquivo decidiu. Pode-se dar a isso o nome que se quiser", disse. A Herança Una, que protestou na estreia, informou que não vai se manifestar sobre a gravação.
Quanto à música, a escolha do eco se ouve. As entradas desencontradas, que um técnico teria alinhado em minutos, dão ao terceiro ato uma hesitação que a partitura sugere e a estreia de agosto, perfeitamente sincronizada, escondia. O intervalo de quarta que Anyanwu repete em todo o ato, e que a correspondente deste jornal a bordo chamou de teimosia, cai nos dois coros no mesmo compasso, sem acerto prévio. É o melhor minuto da faixa.
Há também o que não funciona. A gravação de bordo chegou comprimida, e a produção não conseguiu devolver aos baixos da Peregrina o corpo que eles têm na sala, segundo quem os ouviu ao vivo. Em fones, o canal direito soa mais distante do que deveria, o que alguns ouvintes vão tomar por intenção poética e é só limitação de banda.
A faixa é distribuída sem custo pela banda pública. A produção estuda uma apresentação da montagem no Tejo-Auditório em dezembro, com os dois coros em telão e o regente de Concórdia ao vivo. A data depende, segundo Taddei-Osório, de uma janela de banda que a Peregrina ainda não confirmou.
No primeiro mês do Conservatório da Coluna, os alunos de fora aprendem a ouvir com o esterno
Quarenta estudantes vindos de seis mundos completam quatro semanas de música de pressão sob o gelo; três trocaram o exoesqueleto acústico completo pelo modelo de treino, e a primeira audição pública fica para dezembro.
Dois coros vão cantar juntos na segunda-feira, separados por 18 horas de fila de banda
Concórdia e a Peregrina executam o terceiro ato de Var. no mesmo instante nominal, sabendo que nenhum dos dois ouvirá o outro ao vivo; a estreia conjunta só existirá na montagem, prevista para outubro.