Diário da Travessia: cantamos junto com quem só nos ouviria no dia seguinte
A crônica de setembro traz a récita de 14 de setembro vista do convés: cinquenta e oito vozes de bordo, uma partitura chegada em agosto e a gravação de Concórdia recebida dezoito horas depois, numa terça-feira de trabalho.
Às 20h de 14 de setembro, hora de bordo, cinquenta e oito pessoas se levantaram no vão do Convés Central e começaram a cantar o terceiro ato de uma ópera que chegou à nave em agosto. A mais de um ano e meio-luz daqui, no instante que os dois relógios concordaram em chamar de mesmo, o coro da cooperativa de Concórdia fazia igual. Nenhum de nós ouviu o outro. Era o combinado.
Quem regeu foi Dario Kessel-Peregrino, que passou a semana avisando que não haveria regência dupla nem truque de sincronia, só a partitura e o relógio. O coro de bordo tem gente da primeira geração, que cantou na partida em 2228, e gente que aprendeu a ler música este ano. A maior parte ensaiou depois do turno, nos pomares lineares, entre as fileiras, porque é lá que o som se comporta melhor e ninguém reclama do barulho.
Não vou fingir que foi fácil cantar para ninguém. O terceiro ato é o mais lento de Var., o que a crítica da Terra chamou de mais escrito pela continuidade do que pela compositora, e tem aquela insistência num intervalo de quarta que nos ensaios parecia teimosia e, na noite, pareceu pergunta. Cantamos a pergunta inteira e fomos dormir sem resposta, como se sabia desde o começo.
A resposta chegou na terça-feira, às 14h, pela banda de cortesia: a gravação de Concórdia, comprimida, com um chiado que o técnico de casco jurou ser da compressão e não das vozes. A nave parou pouco, mas parou. Quem estava nos pomares ouviu nos pomares, a cozinha ouviu entre as panelas, e a Escola da Chegada interrompeu uma aula de geometria. Houve um momento, que várias pessoas me descreveram do mesmo jeito sem terem combinado, em que a quarta teimosa de Concórdia caiu exatamente onde a nossa tinha caído na véspera. Não era sincronia, era a mesma partitura. O convés reagiu como se fosse sincronia mesmo.
Registro, por dever de ofício, as notícias do mês. A folga do setor de reciclagem subiu para 4% depois do alongamento do ciclo de água, a âncora segue saudável e a capitã-rotativa Ondina Weiss-Peregrino cumpre o último trimestre do mandato. Uma família de bordo recebeu pelo Enlace assistido uma carta de Lisboa sobre um relato de sonho de 2245. O Conselho de Convés confirmou o recebimento e mais nada; a família pediu prazo. A resposta, quando vier, virá como tudo aqui: devagar e decidida.
A montagem das duas gravações numa faixa só sai em outubro, dizem de Lisboa. Aqui ela já existe, sem técnico nenhum: está na memória de quem estava no vão às 20h de segunda e nos pomares às 14h de terça. Dezoito horas é o tempo que uma nota leva para atravessar a distância entre nós e vocês. Descobrimos este mês que é também o tempo que ela leva para virar lembrança comum.
Lía Ortiz-Peregrino é correspondente do ARQUIVO X a bordo da Peregrina. A coluna "Diário da Travessia" é transmitida mensalmente por Enlace de banda mínima.
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