Diário da Travessia: a aula de chegada
Doze aprendizes adultos estudam uma chegada prevista para 2348; o primeiro exercício é aprender o que o mapa ainda não pode mostrar.
A primeira tarefa da aula de chegada era deixar uma parte da folha em branco. Havia doze aprendizes, todos entre dezoito e 23 anos, e nenhum pareceu gostar muito da instrução. A turma tinha recebido uma malha de coordenadas e esperava preencher o que faltava. O professor pediu que distinguissem o que era dado, o que era hipótese e o que ninguém ali sabia desenhar.
Não estavam fazendo um mapa de uma costa de Tau Ceti e. O exercício usava uma geometria de ensino, sem pretensão de mostrar a superfície que a Peregrina encontrará em 2348. Mesmo assim, a folha convidava a completar. Uma linha acabava perto da borda, e a mão parecia querer levá-la até o fim. A dificuldade da primeira hora foi aceitar que uma interrupção podia ser a informação correta.
Nélio Aras-Peregrino, técnico de irrigação que ajudou a preparar exemplos de documentação para a turma, passou pela sala no intervalo. "Nas fichas de manutenção também deixamos campo sem resposta. Depois alguém precisa saber se não foi medido ou se esqueceram de preencher", disse. A distinção foi para a margem da folha, antes de qualquer desenho novo.
Daqui até a chegada prevista são 101 anos. Os aprendizes terão entre 119 e 124 se estiverem vivos quando a nave alcançar seu destino. Numa sociedade em que uma vida pode atravessar 120 ou 140 anos, a conta não é absurda. Também não é uma promessa que a escola possa fazer a alguém. O curso prepara trabalho e documentação para quem chegar, sem escolher agora quem estará presente.
Uma aluna prendeu a folha com a própria borracha porque a borda insistia em enrolar. Quando precisou apagar uma marca, pediu ao colega que segurasse o papel por um instante. Foi a única pequena desordem de uma mesa em que tudo parecia destinado a durar mais do que uma aula. A parte em branco continuou ali depois que a borracha voltou ao lugar.
A Peregrina partiu em 2228. Eu escrevo no décimo nono ano de uma viagem que não cabe inteira na memória de quem está nesta sala. O que sabemos sobre a nave já inclui revisões de pessoas que não participaram da partida, e os próximos cadernos serão corrigidos por gente que ainda não nasceu. Não é preciso imaginar a chegada para encontrar trabalho suficiente no presente.
Ao fim do exercício, o professor pediu uma legenda que permitisse a outra turma continuar sem receber a explicação oral. Não bastava escrever "desconhecido" em tudo. Era preciso dizer o que faltava verificar e quais traços pertenciam apenas ao modelo usado em aula. O mapa ficou menos cheio depois da revisão, e a legenda, maior.
Levei comigo uma cópia do enunciado, sem as folhas dos alunos. A crônica seguirá a fila de dezoito horas da nossa banda de cortesia. A aula de amanhã usará as mesmas coordenadas e pedirá que cada dupla leia o registro deixado por outra. A chegada continua prevista para 2348.
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