Diário da Travessia: no ano 19, a centésima criança
Nasce Íris Camejo-Peregrino, a centésima criança da viagem a Tau Ceti; a bordo, o número que era meta demográfica virou festa de convés, e a crônica do mês é sobre o que se planta para quem chega.
Íris nasceu na terça-feira às 04h20, hora de bordo, no ambulatório do Convés Três, a mais de um ano e meio-luz de distância de qualquer outro ser humano que não estivesse na sala. Três quilos e cem, saúde de manual, berro considerável. Filha de Olívia Camejo, agrônoma dos pomares lineares, e de Dari Peregrino-Voss, técnico de casco da segunda geração. Pelo registro civil da nave, cidadã número 5.214. Pela contagem que importa ao coração coletivo: a centésima criança nascida na travessia.
O Conselho de Convés tentou marcar cerimônia e desistiu a tempo. A festa se fez sozinha, do jeito das festas daqui: alguém pendurou lanternas de cultivo no vão do Convés Central, o coro dos velhos ensaiou a cantiga de chegada fora de hora, e a cozinha quebrou o racionamento de açúcar com a autoridade que só as cozinhas têm. A capitã-rotativa deste triênio, Ondina Weiss-Peregrino, passou pelo vão, ergueu o copo de chá e disse a frase mais curta do mandato: "Cem motivos".
Para quem lê de longe: cem crianças em dezenove anos pode parecer pouco. É o número exato do plano: a Peregrina partiu com 5.200 almas e a instrução de chegar a Tau Ceti com mais gente do que partiu, sem nunca exceder o que os pomares aguentam. A demografia de bordo é a nossa política, a nossa loteria e o nosso esporte de arquibancada. Casais entram na fila do licenciamento como quem entra na fila de um mirante: sabendo que a vista é para os outros. Íris, como os noventa e nove antes dela, verá Tau Ceti aos 101 anos de nave, se a média das longevidades ajudar; os pais dela, talvez; os avós, não, e assinaram sabendo.
É disso que esta coluna trata hoje, porque foi disso que a nave tratou a semana toda. No dia seguinte ao nascimento, o professorado da Escola da Chegada, onde se formam os que farão o desembarque que os avós não verão, abriu a aula magna do semestre com a pergunta de sempre para os alunos novos: "O que se planta numa terra que não veremos?". A resposta canônica, decorada por todas as gerações, é "pomar". A resposta de um menino de sete anos, este ano, foi outra, e o professor Ludvik jura que não ensaiou: "Planta-se gente".
Registro, por dever de ofício, as notícias duras do mês: o setor de reciclagem opera com folga de 3%, a menor da década, e o Conselho estuda alongar o ciclo de água; a âncora de Enlace segue saudável, com banda mínima (esta coluna viaja para vocês por uma fresta do tamanho de uma carta); e a ópera nova da Terra, Var., chegou completa por cortesia do espólio da compositora. O coro já disputa quem canta o terceiro ato.
Do resto, fica o essencial. Chamamos esta nave de mundo por cortesia estatística, dizem os censos de vocês. Pois na terça-feira, às 04h20, o mundo por cortesia berrou a plenos pulmões, e cinco mil pessoas do lado de fora da sala sorriram no escuro como se a luz de Tau Ceti já desse na cara. Não dá ainda. Faltam 101 anos. Estamos indo.
Lía Ortiz-Peregrino é correspondente do ARQUIVO X a bordo da Peregrina. A coluna "Diário da Travessia" é transmitida mensalmente por Enlace de banda mínima.
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