Sorteio do Terceiro Anel abre com 214 mil inscritos e derruba o sistema por 40 minutos
Primeiro dia de inscrições supera em 60% a fila histórica de residência; prioridade de estivadores confirmada, filas físicas se formaram por costume, e um em cada cinco inscritos vem de Bóreas, número que ninguém comenta em voz alta.
Entenda esta história Moradia nas Eólicas
As Eólicas são cidades flutuantes na atmosfera de Júpiter. A expansão do Terceiro Anel de Zéfiro e o projeto de Notos, uma cidade-irmã de Bóreas, põem moradia, trabalho e dinheiro na mesma discussão. Para os moradores, a questão começa no endereço que poderão chamar de seu.
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O primeiro dia de inscrições para o sorteio dos 40 mil lotes residenciais do Terceiro Anel terminou nesta quinta-feira com 214.618 inscritos, 60% mais que a fila histórica de residência de Zéfiro, que a prefeitura levou uma década acumulando e o formulário novo superou em dezoito horas. O sistema municipal caiu às 9h20, quarenta minutos depois de abrir, e voltou antes do almoço com um aviso que a cidade inteira leu como diagnóstico: "A demanda está saudável. O servidor, agora, também."
A inscrição segue aberta até 30 de setembro, e o sorteio está mantido para novembro, com as regras publicadas na quarta: prioridade para quem espera há mais de cinco anos e para famílias de estivadores (item do acordo que encerrou a greve) e trava anti-especulação de dez anos sem revenda. "Lote do Terceiro Anel é para morar, não para girar", repetiu a prefeita Dagny Boaventura, na entrevista em que comemorou o número com a prudência de quem já viu filas encolherem: "Inscrição é desejo. Mudança é decisão. Entre um e outra, há um contrato de vento."
Nas praças de atendimento, o dia teve a textura que os números não mostram. Embora a inscrição seja inteiramente remota, filas físicas se formaram desde a madrugada nos balcões do Anel Um, por costume, por desconfiança ou, como resumiu a aposentada Leda Vukovic-Faro, 81, segurando a senha de papel que ninguém lhe pediu: "Moradia a gente pede em pé. Sempre foi assim na minha família, e olha que a minha família já pediu moradia em três mundos."
Um recorte da estatística, porém, circulou o dia inteiro pelos corredores do Conselho Eólico sem que ninguém o comentasse de microfone aberto: 19% dos inscritos do primeiro dia, mais de 40 mil pessoas, têm residência atual em Bóreas. É gente que, a três semanas do anúncio de Notos e a seis meses do plebiscito, escolheu se inscrever na expansão da vizinha em vez de esperar a cidade-irmã. "Inscrição não é voto", desconversou um assessor da prefeitura de Bóreas, antes de desligar. Em Zéfiro, um conselheiro governista foi menos diplomático, sob reserva: "O plebiscito de março começou hoje, e não foi em Bóreas."
A União dos Estivadores do Alto, cuja prioridade no sorteio virou cláusula de acordo coletivo, orientou a categoria a se inscrever "com calma e sem procuração de terceiros"; o sindicato diz ter recebido, só no primeiro dia, onze denúncias de agenciadores oferecendo "vaga garantida" mediante pagamento. "Não existe vaga garantida, existe sorteio", avisou o diretor Malaquias Djalo. "Quem prometer atalho está vendendo vento. E vento, aqui, a gente conhece pelo nome."
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