Zaira Bengtsson-Achebe, que selou o primeiro domo de Marte, morre aos 132
Engenheira-chefe da selagem de 2141 morreu em casa, no distrito que leva seu nome, "de vida completa", segundo a família; Marte decreta três dias de bandeiras a meio mastro sob o domo que ela fechou.
Zaira Bengtsson-Achebe tinha 26 anos na madrugada de 2141 em que a última junta do grande domo de Hellas foi soldada, e uma equipe exausta esperou, em silêncio, os quarenta minutos do teste de pressão que diriam se Marte tinha ganhado sua primeira cidade de céu fechado. Foi dela, sussurrada no rádio quando o ponteiro estabilizou, a frase que os marcianos aprendem antes de aprender a ler: "Um domo não é uma parede; é uma promessa".
Morreu na madrugada deste sábado, aos 132 anos, em casa, no distrito de Hellas que hoje leva seu nome, a três quarteirões da junta que soldou. A família anunciou a morte com a fórmula marciana clássica, "de vida completa", e pediu flores não: mudas para o arboreto público, "que sombra é a caridade dos engenheiros".
Nascida em 2115 em Acidália, filha de uma soldadora sueca e de um geoquímico nigeriano da segunda leva de assentamento, formou-se na primeira turma inteiramente marciana da Escola Politécnica de Hellas. A selagem de 2141 foi o começo, não o auge: cinco anos de obra, 11 quilômetros de arco, uma despressurização parcial que matou quatro operários e que ela fez questão de citar em todo aniversário da cidade ("a promessa custou; digam os nomes"). Chefiou a norma de cúpulas que hoje rege da Luna a Vésper, recusou duas vezes a pasta de infraestrutura da Liga, e aos 90 anos ainda subia em andaime, contra ordens médicas que classificava como "sugestões".
Deixou uma escola informal e enorme: os "meninos da junta", como chamava os 61 engenheiros-chefes que formou: 38 mulheres, número que corrigia com prazer sempre que o apelido era citado. Uma delas, Íngrid Awad, comanda hoje a reancoragem do véu de Zéfiro, a obra que Marte inteiro acompanha com ciúme profissional. "Ela me ensinou que estrutura se calcula três vezes: para o vento que há, para o vento que haverá e para o vento que ninguém imaginou", disse Awad ao ARQUIVO X. "E que se a terceira conta der medo, a conta está certa."
O governo da Liga decretou três dias de bandeiras a meio mastro sob o domo. O velório, aberto, será no vão da Junta Um; a Ponte Límbica municipal oferecerá, pela primeira vez num funeral de Estado marciano, sessões de luto compartilhado, licença que a própria Zaira, consultada este ano, aprovou com uma condição, registrada em cartório: "Compartilhem o luto, não a saudade. Saudade é obra de cada um".
Não deixou eco. No formulário de varredura póstuma, preenchido em 2240 e tornado público pela família neste sábado, respondeu à pergunta padrão ("Deseja constituir continuidade documental?") com a caligrafia firme e a última linha de engenheira: "Não. Obra entregue."
Outras leituras
Morre Basílio Quaresma-Ndlovu, último soldador vivo da selagem de Hellas, aos 131 anos
Integrante da turma que fechou as juntas do grande domo em 2141, ele guardou por oitenta anos a primeira peça de teste na cozinha de casa, antes de doá-la ao museu.
Museu do Domo leva junta de teste de Basílio para a sala de visitas escolares
Peça doada em 2230 será exposta com o registro da selagem; família autoriza reprodução da ficha de trabalho, sem reconstrução de voz.
Zéfiro testa juntas para a reancoragem de 2248
Oito conjuntos de bancada antecedem o serviço em 217 pontos; sindicato pede que tempo de inspeção conste das escalas.