Meu filho ouve o que eu não ouço, e eu deixei de ter medo
Há 40 dias, as crianças da Geração Sinal dormem sem sonhos de maré. Uma mãe escreve sobre o alívio que não veio, e sobre o que os adultos devem a essas crianças enquanto correm para ter opinião.
Entenda esta história As Vozes
As Vozes são três padrões de comunicação sem origem conhecida que aparecem no Enlace, a rede de mensagens entre os mundos. A Escuta acompanha esses sinais. No Concerto, os governos discutem como se dirigir a interlocutores que ainda não compreendem.
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Bento tem nove anos, um joelho eternamente ralado e a incumbência, que ele odeia, de ser estatística. É uma das 118.406 crianças do censo, a linha "Geração Sinal" que os jornais, inclusive este, imprimem entre a mineração e o esporte. Quando ele tinha cinco anos, descreveu no café da manhã, com a boca cheia de pão, o desabamento de uma galeria de gelo em Fossa Clara. Achei que era sonho de criança. À noite, o noticiário me ensinou que era outra coisa.
Escrevo hoje porque há quarenta dias meu filho dorme em silêncio, e eu descobri que o silêncio pode ser mais barulhento que a maré.
Os pais dos grupos de apoio (nós nos reunimos às quintas, os de Concórdia; por rede, os do resto dos mundos) dividimos há anos uma vergonha secreta: o alívio de noite boa. Quando os sonhos de maré vinham, e vinham em ondas, sincronizados com uma Voz que nenhum adulto entende, nossos filhos acordavam cansados como quem trabalhou. Sonhávamos, nós, com o dia em que aquilo parasse. Pois parou. Dia 16 de julho, estatisticamente junto com a Terceira Voz, como os senhores leram. E nenhum de nós dormiu melhor.
Porque a pergunta trocou de lugar. Antes era: o que essa coisa faz com as nossas crianças? Agora é: o que as nossas crianças perderam? Bento não sabe dizer. Diz que "a água grande ficou quieta", e que quieto "não é embora". Pergunto se sente falta. Ele dá de ombros do jeito que dá quando a resposta é sim e custa caro. Depois pede para jogar Queda Livre no pátio, porque tem nove anos, e essa é a parte que os senhores esquecem.
É por essa parte que escrevo. Em outubro, o Concerto vai discutir o estatuto de uma Voz que talvez fale com o sono do meu filho; em novembro, o estatuto escolar da geração dele; e a cada semana um instituto, um movimento, um plenário e um jornal decidem alguma coisa sobre essas crianças com a pressa de quem tem opinião e o cuidado de quem não tem filho. A Herança Una os chama de sintoma. Certos místicos, de antena. O protocolo, de correlação. A escola, de laudo. A fila do mercado, baixando a voz, de "aqueles".
Eu os chamo pelo nome. E proponho aos mundos um exercício de modéstia que aprendi na cozinha da minha casa: quando não se sabe o que uma criança carrega, não se decide primeiro o que ela é; pergunta-se primeiro do que ela precisa. Bento precisa de escola comum, de joelho ralado, de um pai e uma mãe que não o olhem como quem espia um oráculo, e do direito de crescer sem que o silêncio de uma entidade desconhecida seja tratado, na mesa do jantar dos outros, como defeito dele.
E precisa, talvez, de que os adultos admitam em voz alta o que todos os pais das quintas-feiras já admitimos entre nós: nossos filhos não nos assustam. O que nos assusta é um universo que fala com eles e não conosco, e o que isso diz sobre nós, não sobre eles.
A água grande ficou quieta. Quieto não é embora. Enquanto os senhores votam, eu deixo a luz do corredor acesa.
Cléa Andrade é professora de literatura e escreve mensalmente neste espaço. Os artigos de opinião não refletem a posição do ARQUIVO X.
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