Resposta ao Terceiro Anel: Bóreas convoca plebiscito sobre uma cidade-irmã
Um dia após a vitória de Zéfiro no Conselho Eólico, a cidade-mãe anuncia consulta popular para março sobre fundar a quarta Eólica em vez de crescer; "não queremos ser maiores, queremos ser mais", diz prefeitura.
Entenda esta história Moradia nas Eólicas
As Eólicas são cidades flutuantes na atmosfera de Júpiter. A expansão do Terceiro Anel de Zéfiro e o projeto de Notos, uma cidade-irmã de Bóreas, põem moradia, trabalho e dinheiro na mesma discussão. Para os moradores, a questão começa no endereço que poderão chamar de seu.
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Bóreas escolheu responder à expansão de Zéfiro com a única coisa que uma cidade de 106 anos tem e a vizinha não: descendência. A prefeitura anunciou nesta terça-feira a convocação de um plebiscito, marcado para março de 2248, na abertura da safra, sobre a fundação de uma cidade-irmã: a quarta Eólica de Júpiter, a primeira desde a plataforma Hélio-Delta, projetada não para crescer Bóreas, mas para nascer dela.
"Zéfiro decidiu ser maior. Respeitamos: é o jeito de Zéfiro", disse a prefeita Solana Ito-Brandt, no anúncio feito diante do Salão da Primeira Flutuação, cenário que ninguém em Bóreas escolhe por acaso. "Bóreas não quer ser maior. Quer ser mais. Toda cidade eólica que existir para sempre terá saído desta."
O projeto preliminar, batizado provisoriamente de Notos, seguindo a tradição dos ventos, prevê uma cidade de porte inicial modesto: 80 mil moradores, flutuação no mesmo nível 0,54 bar, a meia hora de cabotagem de Bóreas. O custo estimado, ₲ 31 bilhões, seria financiado sem a Vale-Ceres, ponto que a prefeitura sublinhou duas vezes e a mineradora fingiu não ouvir. Procurada, a Vale-Ceres declarou "acompanhar com interesse toda iniciativa que fortaleça a economia joviana", fórmula que, no dialeto corporativo, os analistas traduzem como "ainda não fomos convidados".
O conselheiro Otto Lindgren-Sá, que na véspera liderou os votos contrários ao Terceiro Anel com o argumento de que Zéfiro construía "um país, não um bairro", apareceu ao lado da prefeita, e não escondeu que a derrota de ontem é a certidão de nascimento do projeto de hoje. "Perdemos a votação certa", disse. "Cidade não se defende encolhendo os outros; defende-se fundando."
Em Zéfiro, a reação oficial coube à prefeita Dagny Boaventura, que preferiu a elegância de madrinha: "Júpiter tem céu para todas as filhas de Bóreas; nós somos uma delas". Nos bastidores do Conselho Eólico, porém, técnicos lembram que duas obras-século simultâneas disputariam os mesmos guindastes orbitais, os mesmos engenheiros de véu e os mesmos estivadores recém-saídos de greve. A União dos Estivadores do Alto, por sua vez, fez as contas em voz alta: "Duas obras é pleno emprego por vinte anos", disse o diretor Malaquias Djalo. "Que decidam rápido."
O plebiscito de março será o primeiro das Eólicas em 40 anos. Até lá, Bóreas fará o que sempre fez melhor que todo mundo: reunião de vizinhança.
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