Os 61 relatos viram números, e a análise cega começa em três mundos ao mesmo tempo
Equipes de Lisboa, Hellas e Fossa Clara recebem os textos sem nomes, sem datas e misturados a 244 iscas; as cartas às nove famílias que nada sabiam começaram a ser entregues em mãos; "método também é um pedido de desculpas, quando bem feito".
Os 61 relatos de 2245 deixaram de ter nomes neste sábado. No lugar, números de quatro dígitos, sorteados por um núcleo notarial do Concerto que gravou a tabela de correspondência num cofre físico: papel, lacre e duas testemunhas, tecnologia que a ciência dos mundos reserva para quando não quer confiar em si mesma. Assim começou, três dias depois de anunciada, a análise cega do conjunto-controle do protocolo Damásio-Escuta.
O desenho é de manual, executado com o rigor de quem sabe que será auditado: três equipes independentes (linguística computacional em Lisboa, filologia clínica em Hellas, semiótica infantil em Fossa Clara) recebem os mesmos 305 textos, dos quais 61 são os relatos verdadeiros e 244 são iscas: relatos públicos antigos, transcrições de sonhos comuns e textos sintéticos produzidos por um núcleo isolado. Nenhuma equipe sabe a proporção. A pergunta única: existe, no conjunto, um grupo que converge em vocabulário e estrutura, e a construção "respirando devagar" pertence a ele?
"Se as três equipes, sem se falarem, cercarem o mesmo grupo de textos, temos um fenômeno. Se cada uma cercar um grupo diferente, temos uma década de método a revisar", resumiu a diretora do Instituto Damásio, Amélia Reis-Tanaka, que estabeleceu prazo de noventa dias e proibiu balanços parciais. "Resultado parcial de análise cega é contradição em termos. Quem vazar prévia responde por quebra de desenho, e eu já avisei que considero a expressão um eufemismo."
A escolha de Fossa Clara para a terceira equipe, confirmou o instituto, não foi geográfica: a escola semiótica abissal é a única dos mundos treinada em linguagem de crianças que crescem ouvindo com o corpo. "Se existe alguém capaz de separar o que uma criança diz do que uma criança repete, está debaixo do gelo", disse Reis-Tanaka.
Enquanto os textos viravam números, as cartas ganhavam nomes. O instituto confirmou que a entrega às 61 famílias começou na sexta-feira, pelas nove que nunca souberam do uso dos relatos, procuradas primeiro, em mãos, por duplas formadas por um pesquisador e um conselheiro de família independente. Duas entregas foram feitas; sete famílias vivem fora da Terra, e as visitas seguirão "no ritmo de quem pede licença, não no de quem cumpre cronograma". A frase final da diretora, na porta do instituto, deve sobreviver ao caso: "Método também é um pedido de desculpas, quando bem feito. Estamos tentando fazer os dois direito, na ordem certa."
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