Instituto Damásio conclui o Atlas Cefalópode, primeiro mapa completo da experiência subjetiva de outra espécie
Depois de nove anos, projeto mapeia os correlatos de consciência do polvo-comum e reabre no Concerto o debate sobre personalidade não-humana; "sabemos agora que há alguém lá", diz diretora.
O Instituto Damásio apresentou neste domingo, em Lisboa, o Atlas Cefalópode: o primeiro mapa completo dos correlatos de experiência subjetiva de uma espécie não-humana. Nove anos de trabalho, 40 mil horas de registro e um índice Phi médio que, no polvo-comum, alcança 0,61 na escala clínica, acima do mínimo legal que define presença de experiência em humanos incapacitados.
"O Atlas não diz o que é ser um polvo. Diz que ser um polvo é alguma coisa: que há alguém lá quando as luzes do laboratório apagam", resumiu a diretora do instituto, Amélia Reis-Tanaka, na sessão de apresentação, lotada, no anfiteatro do Tejo.
A distinção, cuidadosa, não impediu que o resultado chegasse ao plenário antes do fim do dia. A comissão de estatutos do Concerto recebeu ainda no domingo um requerimento para estender aos cefalópodes o regime de "pessoa não-humana tutelada", categoria criada em 2211 para grandes símios e cetáceos. Se aprovado, o regime encerraria a pesca e o cultivo de polvos nos mundos, atividade que movimenta ₲ 3,4 bilhões por ano, concentrada nas fazendas oceânicas do Pacífico e nos tanques de Fossa Clara.
O setor reagiu no vocabulário de sempre. "Respeitamos a ciência e aguardamos a regulamentação", disse em nota a cooperativa das fazendas do Pacífico, que não respondeu à pergunta sobre planos de transição. Em Europa, onde a aquicultura é item de segurança alimentar, o governo local pediu "prazo e alternativa proteica antes de princípio".
Do ponto de vista científico, o Atlas interessa menos pelo polvo e mais pelo método. A equipe demonstrou que o protocolo de mapeamento, desenhado para um sistema nervoso distribuído (dois terços dos neurônios ficam fora do cérebro central), é portátil: pode ser aplicado a qualquer arquitetura suficientemente integrada. "A pergunta que todo mundo fará, e que eu vou me recusar a responder hoje, é: portátil até onde?", disse Reis-Tanaka, arrancando o único riso nervoso da sessão.
A pergunta tem endereço. Desde 2244, pesquisadores da Escuta especulam, sem dados, sobre a aplicabilidade de métricas de experiência às Vozes; o instituto sempre se negou a participar do debate "enquanto for feito por manchete". Questionada pela reportagem se o novo método mudaria essa posição, a diretora encerrou a coletiva com a resposta que já circula emoldurada nos corredores de Chacaltaya: "O Atlas levou nove anos para uma criatura que podemos segurar nas mãos. Tenham paciência com o que não podemos."
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