\"Chegamos.\" Com a frase guardada por 46 anos, Alvor entrega o governo à geração nativa
Em 23 minutos, ao poente de sempre, Zhao-Travessia passou a bússola que não funciona a Naiara Okafor-Dias e disse a única palavra que trouxe pronta de 2201; a resposta dela teve duas. A cerimônia acabou em mutirão de colheita.
A cerimônia durou 23 minutos, um a mais que o ensaiado. O atraso foi o vento, que derrubou o mastro de som da ala leste e obrigou o coral de Meia-Luz a cantar o hino dos onze mundos sem amplificação. Ninguém reclamou. Em Alvor, contou depois a chefe do cerimonial, "hino sussurrado por seis mil pessoas vale por decreto".
O protocolo foi o prometido. Naiara Okafor-Dias, 43, jurou sobre o registro da Travessia às 14h09 do meridiano de Concórdia, sob o poente fixo da Linha do Crepúsculo, diante dos 176 fundadores vivos sentados na primeira fila. Emílio Zhao-Travessia, 91, levantou-se sem ajuda, pegou da mesa a bússola magnética que trouxe da Terra em 2201, o instrumento que nunca apontou para lugar nenhum neste planeta, e a depositou nas mãos da primeira chefe de governo humana nascida fora do Sistema Solar.
Então disse a frase que guardava há 46 anos, e que três repórteres deste jornal, duas fontes do cerimonial e um palpite do editor-chefe não conseguiram antecipar. Uma palavra:
"Chegamos."
A praça levou um segundo para entender. A Travessia terminou em 2201, dizia o registro oficial; o fundador esperou 46 anos para discordar. Nave que pousa não chegou, explicaria ele mais tarde, no mutirão, de cesto na mão: "Chegar é quando a terra governa. Eu pousei em 2201. Nós chegamos hoje."
A resposta de Okafor-Dias, pelo protocolo, também tinha direito a uma frase. Ela usou duas palavras, olhando menos para a plateia e mais para a primeira fila:
"Somos daqui."
O resto foi o que Alvor sabe fazer com cerimônias: encerrá-las. O coral cantou, os fundadores receberam as mudas de fruta que o cerimonial distribuiu no lugar de flores, e a praça inteira caminhou para o pomar de Clareira, onde a recepção oficial era um mutirão de colheita. A presidenta empossada trabalhou uma hora e meia de fila comum, ao lado do antecessor, que se recusou a usar luvas ("despedida se faz com a mão").
Os números administrativos do dia, divulgados pelo Conselho à noite: 6.114 presentes na praça, transmissão recebida em dez mundos ao vivo e em Vésper com nove horas de fila, 1,4 tonelada colhida no mutirão, nenhuma ocorrência. A primeira reunião de governo está marcada para as 8h de amanhã, com um único item herdado e conhecido: a âncora de reposição que só chega em 2263. As cadeiras da praça, informou o cerimonial, serão devolvidas até quarta de manhã.
Posse em Alvor é amanhã: horários, transmissão e o que esperar dos 22 minutos
Cerimônia começa às 14h TC de terça-feira, com transmissão por banda pública para os onze mundos; guia rápido de horários locais, protocolo e a única surpresa que ninguém conseguiu apurar: a frase de Zhao-Travessia.
Alvor à véspera: o mundo que aprendeu a apontar para fora ensaia sua maioridade
A 48 horas da posse de Naiara Okafor-Dias, a praça está pronta, a bússola está na mesa e a geração fundadora ocupa as primeiras filas; reportagem da véspera de um dia que nenhum mundo viveu antes.