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Cultura·Lisboa, Terra

A ópera que a morta escreveu — estreia de "Var." divide Lisboa e reabre a Lei dos Ecos

Obra assinada pelo eco da compositora Marta Anyanwu estreia no Tejo-Auditório sob aplausos, protesto e uma questão sem dono: de quem é a música que uma continuidade compõe?

No foyer do Tejo-Auditório, a saída da estreia — e o gesto de costas que dividiu a noite.
Imagem No foyer do Tejo-Auditório, a saída da estreia — e o gesto de costas que dividiu a noite. Imagem: Serviço de Imagem do ARQUIVO X
Por Beatriz Ndiaye LISBOA, TERRA 21 DE AGOSTO DE 2247

No fim, quando as luzes do Tejo-Auditório subiram sobre a plateia em silêncio, a primeira pessoa a se levantar não aplaudiu: virou-se de costas para o palco, o gesto combinado da Herança Una, e saiu pelo corredor central. A segunda pessoa a se levantar aplaudiu por vinte minutos. Var., a primeira ópera assinada por um eco, estreou na quinta-feira exatamente como se esperava: dividindo tudo.

Marta Anyanwu morreu em 2244, aos 76 anos, deixando três atos esboçados e a varredura póstuma que a família autorizou. O eco — na letra da lei, uma "continuidade documental" — trabalhou três anos com a maestrina Ilka Souto-Bengala, que fez as vezes de intérprete, reviradora e, segundo ela própria, "advogada da dúvida". "Eu perguntava: Marta faria assim? E a continuidade respondia: Marta já não faz. Eu faço. Foi a frase mais honesta que ouvi em três anos de ensaio", contou Souto-Bengala à reportagem.

Musicalmente — e esta crítica pede licença para opinar no meio da notícia, porque a notícia é a opinião de todos —, Var. é inequivocamente Anyanwu no primeiro ato e inequivocamente outra coisa no terceiro: mais lenta, mais repetitiva, com uma insistência num intervalo de quarta que a compositora viva evitava como quem evita um vício. É ali, na diferença, que a obra fica interessante; e é ali que os dois lados do protesto encontram munição.

"Isto não é herança, é ventriloquismo com o cadáver da nossa maior compositora", disse à porta do teatro a porta-voz da Herança Una em Lisboa, Odete Vilar-Kranz, sob uma faixa com o lema do movimento. Do outro lado da mesma calçada, a filha da compositora, Zinha Anyanwu-Reyes: "Minha mãe passou a vida com medo de parar no meio. Não parou. Quem acha profanação não é obrigado a ouvir o terceiro ato — eu ouvi minha mãe continuar."

O nó jurídico chegou antes da crítica. Pela Lei dos Ecos, de 2241, a continuidade não tem personalidade: não assina contrato, não recebe direitos. Os créditos de Var. saem em nome do espólio — mas o eco, consultado pela produção sobre a destinação da própria parte, respondeu por escrito que "continuidades não possuem; no meu caso, nem desejam". A frase, exibida no programa da ópera, virou o centro do debate que a comissão de estatutos do Concerto reabre em outubro, na mesma pauta em que discute as Vozes. Um século inteiro cabe nessa fila dupla: o que fazer com quem fala sem estar.

Var. fica em cartaz até novembro, com sessões transmitidas por banda pública para nove mundos. A da Peregrina, por cortesia do espólio, vai completa — a primeira ópera nova que a nave recebe em dezenove anos de viagem.

ARQUIVO ABERTO: ECOS · OPERA · MARTA-ANYANWU · LEI-DOS-ECOS · CULTURA TRANSMITIDO EM 21 AGO 2247 · RECEBIDO 221 ANOS ANTES
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