Primeira das nove famílias pede a retirada do relato, e o conjunto-controle cai para 60
Neusa Kowalski-Abé recebeu a visita do Instituto Damásio em 3 de setembro e revogou o consentimento no mesmo dia; o instituto retirou o texto sem contestar, e o cofre notarial passará a calcular o resultado da análise cega com e sem ele.
A operadora de estufa Neusa Kowalski-Abé, 44 anos, recebeu na tarde de 3 de setembro, na cozinha de casa, no terceiro distrito de Porto Olimpo, a dupla que o Instituto Damásio manda às famílias: um pesquisador e um conselheiro independente, sem aviso prévio de imprensa, com um envelope de papel e uma explicação de vinte minutos. Ela ouviu até o fim, fez três perguntas e revogou o consentimento no mesmo dia. Com isso, o conjunto-controle de 2245 que sustenta uma década de literatura sobre a Geração Sinal deixou de ter 61 relatos e passou a ter 60.
É a primeira revogação desde que o instituto começou a procurar, uma a uma, as nove famílias cujos relatos entraram no conjunto sem que elas soubessem. O filho de Kowalski-Abé tinha nove anos quando descreveu, numa consulta de rotina, o sonho que virou linha de tabela. Hoje tem onze.
"Não tenho queixa do instituto, e a moça que veio explicou tudo direito", disse ela à reportagem, na mesma cozinha. "Tenho uma pergunta simples: quem assinou por ele? Fui eu, com a caneta deles, quando ele tinha nove anos. Aos dezoito, ele decide. Até lá o texto fica com a gente."
O instituto não contestou. Em nota de três linhas assinada pela diretora Amélia Reis-Tanaka, informou que a retirada foi processada em 4 de setembro, dentro do prazo de 24 horas previsto no protocolo revisado, e que o registro clínico correspondente foi devolvido à família em papel, sem cópia. "Consentimento revogável não é figura de retórica", diz a nota.
O preço técnico é conhecido e não é trivial. As três equipes da análise cega, em Lisboa, Hellas e Fossa Clara, receberam em 29 de agosto os mesmos 305 textos numerados, dos quais 61 eram os relatos verdadeiros. Retirar um deles no meio do trabalho, sem contar às equipes qual saiu, exigiria refazer a distribuição. A solução adotada pelo núcleo notarial do Concerto foi outra: o texto permanece na pilha que as equipes já têm, mas seu número foi lacrado em envelope separado, e o resultado final será calculado duas vezes, com e sem ele. A diferença entre as duas contas será publicada junto do resultado, em novembro.
Pesquisadores do protocolo, ouvidos sob reserva, dizem que a solução resolve este caso e não resolve o próximo. Se outras famílias revogarem, argumentam, cada retirada exige um cálculo paralelo, e a partir de um certo número de exclusões o conjunto perde a função de régua. Ninguém arrisca dizer qual é esse número.
O Pacto das Linhagens apoiou a família em nota e pediu que o instituto ofereça a revogação também às 52 famílias que sempre souberam, "para que a escolha não dependa de quem foi mal informado em 2245". A Herança Una, que na semana passada pedia a suspensão do protocolo inteiro, não comentou o caso.
Das nove famílias, sete já foram visitadas. Duas moram fora do Sistema Solar e serão procuradas por Enlace assistido, sem data definida. Nenhuma das outras seis manifestou intenção de revogar até o fechamento desta edição.
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