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Opinião·Alcântara-Orbital

Editorial: Três quarteirões

No domingo 20, a Herança Una e o Pacto das Linhagens ocuparam Lisboa a poucos metros um do outro, e nada aconteceu. Este jornal discorda do ato em quase tudo e defende, justamente por isso, o direito de fazê-lo.

Por Salomão Vieira ALCÂNTARA-ORBITAL 25 DE SETEMBRO DE 2247

No domingo 20, a Herança Una levou cerca de 3.200 pessoas ao Terreiro do Paço, em Lisboa, para um ato pela forma humana. Três quarteirões adiante, na Ribeira das Naus, o Pacto das Linhagens reuniu perto de 41 mil em um festival com o lema da casa, um só povo, muitos corpos. A prefeitura autorizou os dois, a polícia municipal não precisou isolar nenhum, e a única ocorrência do dia foi um furto de bicicleta que ninguém atribuiu a qualquer dos lados.

Este jornal discorda da Herança Una em quase tudo o que ela diz sobre as linhagens, sobre a Geração Sinal e sobre o que conta como humano. Registramos a discordância sempre que o movimento aparece nestas páginas, e seguiremos registrando. Por isso mesmo convém dizer, com a mesma clareza, que o ato de domingo foi legítimo, pacífico e necessário. Necessário não porque a tese seja boa, mas porque uma cidade onde só marcha quem tem razão já decidiu, sem votar, quem tem razão.

O Pacto entendeu isso antes de muita gente. Quando as datas coincidiram, a organização do festival recusou a sugestão, feita por conselheiros de Lisboa, de pedir a transferência do ato para outro dia. Manteve os três quarteirões de distância, orientou os voluntários a não atravessá-los e encerrou a programação às 18h, uma hora antes do fim do ato, para que a dispersão das duas multidões não se cruzasse na Baixa. Decisões assim não rendem manchete. Rendem cidade.

A semana trouxe o mesmo princípio por outras portas. O conjunto-controle do Instituto Damásio perdeu mais um relato, por decisão de uma família que se cansou de pertencer a uma estatística. E o texto-base do estatuto escolar, apresentado hoje, chega com um artigo que dá a cada criança Sinal o direito de sair dos arquivos da ciência aos 18 anos. Sair de um estudo e discordar em praça pública não são a mesma coisa, mas dependem do mesmo arranjo: regras aceitas por quem perde, cumpridas por quem ganha.

O Concerto vota em outubro o estatuto das Vozes e, em novembro, o escolar. Nas duas votações haverá quem prefira vencer pelo cansaço do outro lado. Domingo mostrou um caminho mais lento e mais barato: dividir a cidade em quarteirões e cumprir o combinado. Este jornal estará nas duas, como esteve em Lisboa, de caderno aberto.

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